“Continuem Remando”: O que Jeffrey Bednar ensinou sobre perseverar em provações sem fim
Professor da Escola de Negócios Marriott, da BYU, Jeffrey Bednar foi convidado a discursar em um devocional no campus, introduzido, de forma inusitada e emocionante, pela própria mãe. Ao longo da mensagem, Bednar (filho do élder David A. Bednar, do Quórum dos Doze Apóstolos, presente na plateia) compartilhou uma das experiências mais difíceis de sua vida para ensinar o que realmente significa “perseverar até o fim”, um dos cinco princípios da doutrina de Cristo.
Um diagnóstico que mudou tudo
Bednar contou que, há mais de 14 anos, ele e a esposa, Ann, ficaram sabendo que esperavam mais um filho. No ultrassom da 18ª semana, descobriram que seria um menino, mas, logo depois, um médico mais experiente assumiu o exame e revelou algo raro: os órgãos do bebê haviam se formado em espelho (coração e estômago do lado direito; fígado e apêndice do lado esquerdo), além de possíveis complicações no baço, nos rins, nos intestinos e no cérebro.
Diante do medo, Bednar disse ter se lembrado da história dos discípulos apavorados durante a tempestade no mar da Galileia, que acordaram Jesus perguntando: “Mestre, não se te dá que pereçamos?” Ele fez a mesma pergunta a respeito do próprio filho, e recebeu, em vez de uma resposta imediata, uma impressão simples e inconfundível: “Jeff, ele também é meu filho.”
Segundo ele, essa lembrança de que o Pai Celestial também era Pai daquele bebê trouxe uma paz profunda, mesmo sem fazer o medo desaparecer por completo.
O menino nasceu com os órgãos invertidos, mas funcionando normalmente, e recebeu o nome de Samuel, “Deus ouviu”. Cinco dias depois, porém, veio um novo diagnóstico: discinesia ciliar primária (DCP), uma condição genética permanente que compromete os cílios responsáveis por limpar as vias respiratórias, causando infecções crônicas e dano pulmonar progressivo, e que também explicava a inversão dos órgãos.
Reaprendendo o que significa “perseverar até o fim”
Foi nesse momento, disse Bednar, que ele percebeu que aquela provação era diferente das outras que já havia enfrentado: não tinha um ponto final previsível dentro da mortalidade. Isso o levou a repensar profundamente o quinto princípio da doutrina de Cristo: fé, arrependimento, batismo, o dom do Espírito Santo e perseverar até o fim.
Bednar admitiu que, por anos, entendeu “perseverar até o fim” de forma equivocada: como uma etapa isolada, quase um “aguentar com os dentes trincados até morrer”, uma definição, ele notou, que sequer menciona Jesus Cristo.
Citando ensinamentos do presidente Henry B. Eyring e do élder Dale G. Renlund, ele propôs outra leitura: a palavra “fim” não precisa significar um ponto de parada, mas sim um propósito, um resultado a ser buscado, como Joseph Smith ensinou ao dizer que a felicidade é o “objeto e desígnio de nossa existência”.
Nessa perspectiva, disse Bednar, perseverar até o fim não é apenas a última etapa da doutrina de Cristo, é, na verdade, sobre o processo inteiro de se tornar mais parecido com Cristo. Ele citou uma frase recente do próprio pai, o élder David A. Bednar, sentado na plateia: perseverar até o fim é “a jornada alegre de uma vida inteira”.
A lição de Pedro andando sobre as águas
Para ilustrar como Cristo participa ativamente dessas tempestades, e não apenas espera no fim delas, Bednar recorreu ao relato de Pedro andando sobre as águas (Mateus 14). Ele destacou que Jesus via os discípulos remando contra o vento desde a praia, mas só foi ao encontro deles depois de horas, caminhando sobre o mar.
Quando Pedro pede para ir ao encontro do Salvador e começa a afundar por medo, Jesus o segura e pergunta por que ele duvidou, repreensão que, segundo Bednar, só faz sentido à luz do ensinamento de que uma fé do tamanho de um grão de mostarda já é suficiente para tornar tudo possível.
Dessa história, Bednar extraiu três atitudes de quem persevera em tempestades sem fim previsível: continuar remando, se aproximar de Cristo dentro da própria tempestade, e caminhar de mãos dadas com Ele, tornando-se cada vez mais parecido com Ele nesse processo.

Três famílias, três tempestades sem fim
Para dar rosto a esses três passos, Bednar compartilhou brevemente as histórias de três famílias que considera exemplos de perseverança:
Andrew e Diana, ex-alunos dele, perderam a filha recém-nascida, Olivia, após uma condição rara detectada ainda na gravidez. Segundo o testemunho que Andrew compartilhou com Bednar, mesmo em meio à dor, ele nunca se sentiu sozinho, sustentado pela certeza de que o Salvador estava ali, e de que a Expiação garantia que Olivia seria recebida “de braços abertos” e um dia teria um corpo perfeito.
Brad e Tiffany Smith enfrentam, há oito anos, o avanço da ELA (esclerose lateral amiotrófica) em Brad, doença que já tirou dele a capacidade de se mover e falar, mas não a fé. Hoje, ele se comunica por meio de um implante Neuralink e de uma voz sintética treinada a partir de gravações da própria voz, e testificou que, mesmo com a doença tirando tudo o que ele sabia fazer, seu testemunho de Jesus Cristo lhe deu perspectiva para enxergar sentido até no sofrimento.
Por fim, Bednar falou sobre a própria esposa, Ann, diagnosticada com câncer pouco depois de ele ouvir, “coincidentemente”, um discurso do élder S. Mark Palmer sobre entregar a Deus o resultado de uma provação sem controle. Mesmo com medo, Ann testificou à família e aos amigos que sentia gratidão por fazer parte de uma jornada pessoal de refinamento rumo a Deus.
“Ele é mais que bem — ele é perfeito”
Bednar encerrou contando que, anos atrás, um ex-aluno lhe perguntou como ele conseguia manter a fé e a paciência diante de tantas provações. Sua resposta, segundo ele, mudou com o tempo: hoje, já não ora mais pedindo que o filho “fique bem”, porque passou a entender de forma diferente o que isso significa.
“Ficar bem” não é ter uma vida livre de desafios físicos, mentais ou emocionais, é permitir que o próprio corpo, antes visto como limitado, se torne um dos maiores instrumentos para ensinar a ele, à família e a muitos outros lições que moldam o caráter rumo a Cristo.
“Hoje, quando olho nos olhos dele, ele é mais que bem, ele é perfeito”, disse Bednar. “A doença dele não é uma adversária. É uma professora.”
À plateia de estudantes, ele deixou um convite simples, repetido ao longo de toda a mensagem: continuem remando, aproximem-se Dele, busquem Sua mão e caminhem ao lado Dele, porque é assim, segundo Bednar, que verdadeiros discípulos perseveram ao lado de Cristo em toda tempestade mortal, mesmo as que talvez nunca terminem nesta vida.
Para assistir ao devocional na íntegra clique aqui!
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