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Enxergando o velho e o novo em Isaías

É difícil, no século 21, com mais de um bilhão de cristãos e dois milênios de apologética e tradição cristãs, compreender plenamente o dilema que Jesus apresentou a Seus seguidores judeus no primeiro século.

Ali estava um judeu praticante que compreendia e conseguia explicar a Torá e os ensinamentos dos profetas com uma clareza impressionante e uma percepção profunda. Ao mesmo tempo, a autoridade com que Ele ensinava parecia, para alguns, colocá-Lo em conflito com o mesmo texto sagrado a partir do qual ensinava.

Ali estava alguém cujas ideias estavam profundamente enraizadas na Torá e nos escritos proféticos, mas que, ao mesmo tempo, ampliava a tradição judaica de maneiras que deixavam muitos desconfortáveis e que outros consideravam francamente problemáticas.

Ali estava um judeu que parecia notavelmente pouco envolvido na política local, mas que ensinava e agia de maneiras que desafiavam, em seus níveis mais fundamentais, o equilíbrio social de sua época.

O mais desafiador era que, embora Jesus reafirmasse o monoteísmo, uma característica essencial do povo judeu, especialmente quando comparado ao politeísmo dos poderes babilônico, persa, grego e romano que haviam submetido o povo de Judá por mais de 500 anos, Ele também afirmava, ou pelo menos não negava, Sua filiação divina. Para alguns, essa ideia representava uma continuação do convênio de Deus com Israel; para outros, era uma rejeição blasfema do primeiro mandamento.

Embora às vezes seja difícil para os cristãos do século 21 perceber isso, Jesus era uma figura que provocava intensas discussões e despertava fortes reações, tanto positivas quanto negativas, entre aqueles com quem interagia.

Caminho do discipulado

Como os primeiros cristãos passaram a ler as antigas profecias

Por isso, não é de surpreender que tanto os opositores quanto os seguidores de Jesus buscassem nos textos sagrados argumentos que sustentassem suas respectivas posições a respeito Dele. Cada grupo procurava uma maneira de “explicar” Jesus ou de rejeitar as explicações sobre Ele.

Há inúmeros exemplos no Novo Testamento em que os opositores de Jesus questionam Seus ensinamentos e Suas ações com base nos textos que hoje chamamos de Bíblia Hebraica. Eles apresentavam a Jesus ensinamentos fundamentais do judaísmo, por exemplo, sobre o Dia do Senhor e, em essência, perguntavam: “Como você pode fazer ou ensinar isso quando nosso texto sagrado parece dizer o contrário?” Segundo os Evangelhos, Jesus respondia a esses questionamentos com facilidade.

Isso não deveria nos surpreender. Ao longo da história religiosa, e até mesmo no cristianismo moderno, quando alguém ensina ou faz algo que consideramos contrário às práticas ou doutrinas estabelecidas, existe uma tendência de recorrer à tradição sagrada em busca de textos que deem autoridade a essa desaprovação.

Da mesma forma, os seguidores de Jesus fizeram algo semelhante: examinaram os textos sagrados em busca de apoio para a causa de Cristo.

Um exemplo importante disso é a presença das chamadas citações de cumprimento no Evangelho de Mateus. (Ver Mateus 1:22–23; 2:15, 17–18, 23; 4:14–16; 8:17; 12:17–21; 13:35; 21:4–5; e 27:9–10.)

O autor desse Evangelho frequentemente usava a expressão “para que se cumprisse” a fim de relacionar explicitamente as palavras proféticas de Isaías, Jeremias, Oseias e outros às ações e aos ensinamentos de Jesus.

O Evangelho de Mateus enxergava nos textos sagrados de Israel uma “trajetória teológica” capaz de incluir Jesus e Sua missão. Na verdade, em maior ou menor grau, todos os textos do Novo Testamento procuram fundamentar a autoridade da vinda, missão, morte e/ou Ressurreição de Jesus em algum ponto da Bíblia Hebraica.

Embora, dois mil anos depois, a maneira como o Novo Testamento interpreta a Bíblia Hebraica possa parecer óbvia para os cristãos modernos, em sua época isso representou uma releitura significativa de textos antigos à luz da vinda de Jesus.

Os primeiros cristãos, muitos deles judeus, passaram a ouvir de uma nova maneira a antiga linguagem profética de sua própria tradição religiosa. Ao fazer isso, encontraram textos capazes de sustentar a doutrina ensinada por Jesus e que pareciam abrir espaço para Sua missão divina e messiânica.

Era uma abordagem interpretativa inovadora.

Por que isso é importante?

No currículo Vem, e Segue-Me de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, durante grande parte de setembro, os membros da Igreja estudam os escritos de Isaías, o profeta da Bíblia Hebraica mais citado nas obras-padrão de nossa fé.

De uma maneira que não é muito diferente da leitura feita por muitas outras denominações cristãs, os santos dos últimos dias são incentivados a encontrar referências e profecias sobre Jesus nos escritos de Isaías.

É importante deixar claro que “encontrar Jesus” no livro de Isaías, ou em outros textos da Bíblia Hebraica, é uma abordagem interpretativa perfeitamente legítima.

No entanto, quase dois mil anos depois das primeiras tentativas dos cristãos de “encontrar” Jesus na Torá e nos escritos proféticos, às vezes é fácil demais para os santos dos últimos dias, e para os cristãos em geral, esquecer o quanto essa compreensão da Bíblia Hebraica era inovadora no primeiro século.

Tratava-se de uma releitura ousada dos textos fundamentais que haviam sustentado a fé judaica durante centenas de anos.

Em nossos dias, porém, estamos tão acostumados a enxergar a Bíblia Hebraica por meio de uma perspectiva cristã que podemos acabar acreditando que essa interpretação cristã é a única leitura legítima, excluindo todas as outras possibilidades. E isso pode ser problemático.

profecias de Isaías

Uma profecia pode ter mais de um significado?

Os materiais do Vem, e Segue-Me explicam claramente que, em sua maioria, as pessoas de hoje não eram o público principal dos profetas do Velho Testamento. Esses profetas lidavam com preocupações imediatas de sua própria época e lugar, assim como os profetas modernos tratam de questões relevantes para nossos dias.

O manual também observa que os profetas podem enxergar além das preocupações imediatas e ensinar verdades eternas relevantes para qualquer época.

Em outras palavras, um mesmo texto pode ser compreendido de diferentes maneiras.

Como exemplo, o Vem, e Segue-Me menciona Isaías 40:3: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor”.

O material explica que esse versículo pode ser entendido de pelo menos três maneiras, todas elas apropriadas:

  1. Como uma mensagem aos judeus cativos na Babilônia de que Deus os libertaria, provavelmente a maneira como o texto foi compreendido originalmente.
  2. Como uma referência a João Batista para os autores dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, uma releitura do versículo à luz da vinda de Jesus.
  3. Como uma profecia que continua se cumprindo hoje, em preparação para a Segunda Vinda de Cristo, quando considerada no contexto da Restauração contínua.

Essa mesma realidade se aplica a passagens como Isaías 7:14–16, Isaías 9:6–7, Isaías 11:1–12 e Isaías 53:2–12.

Sim, nós, cristãos, podemos encontrar nessas escrituras referências a Jesus, retratado como Emanuel, “Deus conosco” (Isaías 7); o “Príncipe da Paz” (Isaías 9); aquele sobre quem repousam “o espírito de sabedoria e de entendimento” (Isaías 11); e aquele que foi “ferido pelas nossas transgressões” (Isaías 53).

Essa é uma abordagem interpretativa legítima. Foi a abordagem adotada pelos primeiros cristãos.

Mas não é a única maneira de interpretar esses textos.

O que Isaías significava para as pessoas de sua época?

De acordo com o que o Vem, e Segue-Me ensina sobre os textos proféticos, também é verdade que, como mencionado anteriormente, Isaías estava tratando de questões imediatas de sua própria época e lugar.

Esses textos certamente tinham um significado profundo para as pessoas que os ouviram em seu contexto original. E continuam tendo um significado profundo para a comunidade judaica, que também encontra força nesses mesmos textos.

Por exemplo, de acordo com a abordagem teológica de Isaías, em seu próprio contexto histórico essas passagens provavelmente apontavam para a esperança de que Deus estabeleceria um líder teopolítico (Isaías 7 e 9), pertencente à linhagem de Davi, que seria mais atento às exigências da Torá, especialmente às relacionadas ao cuidado da comunidade, resultando em um reino de paz e prosperidade para um Israel reunificado (Isaías 11), e que a luta de Israel para estabelecer esse reino teria um significado redentor para todos os povos do mundo (Isaías 53).

As duas leituras oferecem perspectivas diferentes e valiosas, e ambas apresentam visões que possuem sua própria beleza.

profecias de Isaías

O que podemos aprender com diferentes leituras de Isaías?

Na verdade, acredito que respeitar essas diferentes interpretações dos textos de Isaías em particular, e, de maneira mais ampla, respeitar a compreensão judaica da Bíblia Hebraica, aumenta nossa apreciação por esses textos sagrados.

Falando sobre Isaías, o estudioso Walter Brueggemann observa:

O livro de Isaías tem sido um campo fértil de interpretação para a teologia cristã […] mas é preciso reconhecer que muitas leituras cristãs se apropriaram do texto e impuseram interpretações bastante distantes do que parece ser sua intenção mais clara. […] É muito preferível, sugiro, que judeus e cristãos reconheçam juntos que o livro de Isaías é extraordinariamente aberto e fértil em mais de uma tradição.

Em outras palavras, quando deixamos de apreciar essas diferentes leituras lado a lado, prejudicamos nossa própria compreensão, a riqueza do livro de Isaías e a tradição profética.

Quando enxergamos textos como os de Isaías exclusivamente por uma perspectiva cristã, perdemos uma camada adicional de compreensão e deixamos de perceber como essas mesmas passagens ofereceram consolo ao antigo Israel e continuam sendo uma fonte de esperança para os judeus modernos.

Além disso, deixar de considerar diferentes interpretações pode, sem intenção, impedir que enxerguemos novas maneiras de compreender esses textos no futuro. Talvez isso até limite nossa capacidade de esperar pelas “grandes e importantes coisas pertencentes ao Reino de Deus” que ainda não foram reveladas.

Por fim, em sua forma mais prejudicial, a falta de respeito pelas interpretações judaicas pode assumir um tom antissemita. Já ouvi, inclusive em reuniões da Igreja das quais participei, comentários simplistas como: “Os judeus nem sequer entendem suas próprias escrituras!”

Em vez disso, sugiro que sigamos o conselho de Brigham Young e busquemos toda a verdade que pudermos aprender.

À medida que os membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias estudam Isaías e os outros profetas, é fundamental seguir a orientação do manual Vem, e Segue-Me e “aprender sobre o contexto em que o livro de Isaías foi escrito” e considerar as “preocupações imediatas que Isaías abordava em sua época e lugar”.

Ao fazer isso, podemos encontrar novos níveis de compreensão que, talvez de maneira surpreendente, aprofundem nossa fé cristã.

Podemos até descobrir que as leituras do texto feitas no século 8 a.C. e no século 21 d.C. têm mais em comum do que imaginamos inicialmente.

Voltando às reflexões de Walter Brueggemann, ele observa:

“Em minha opinião, é mais importante reconhecer os pontos em comum e a estrutura paralela das afirmações judaicas e cristãs no centro da fé do que discutir qual delas é a principal. […] Ambas as religiões compartilham a confiança em um Deus comum que pode fazer algo novo.”

Ao reconhecer as diferentes maneiras pelas quais Isaías, e todos os profetas, podem ser lidos, aumentamos nossas próprias possibilidades de encontrar compreensão e inspiração. E abrimos espaço para aprender coisas novas que talvez nunca tivéssemos considerado antes.

Fonte: Public Square

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Post original de Maisfé.org

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