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Por que a Bíblia conta a mesma história duas vezes?

Ao ler o Velho Testamento, Crônicas pode deixar alguns leitores confusos, já que repete boa parte do material de 1 e 2 Samuel e de 1 e 2 Reis. Diante dessas repetições, alguns leitores podem se perguntar por que Crônicas sequer está na Bíblia. Uma explicação para a presença de Crônicas na Bíblia é que o livro parece oferecer uma perspectiva ligeiramente diferente sobre a história de Israel.

No século VI a.C., os exércitos de Nabucodonosor destruíram Jerusalém e seu templo, matando e deportando milhares de pessoas. Diante dessa tragédia, os judaítas se esforçaram para explicar como algo assim poderia ter acontecido, e é possível encontrar duas perspectivas diferentes no Velho Testamento.

A pergunta ampla que os livros de Josué a 2 Reis, muitas vezes chamados de História Deuteronomista, parecem abordar é: “Por que Deus deixou nossa nação ser destruída e nosso templo ser queimado?” A resposta dada é, em grande parte, política e moral: porque os reis e o povo repetidamente quebraram seu convênio com Deus.

Em contraste, a pergunta que Crônicas parece abordar é: “Ainda somos o povo de Deus, e o convênio ainda está de pé?” O Cronista escreve para dar esperança, para criar uma identidade baseada na adoração e nos ideais do reino, e para legitimar o templo recém-reconstruído.

história repetida na Bíblia

A visão de Josué a 2 Reis: bênção e maldição

Josué a 2 Reis explica boa parte da história de Judá afirmando que Judá será abençoado se obedecer a Deus, e amaldiçoado se não obedecer.

A História Deuteronomista às vezes toma essa ideia, de que Judá será abençoado pela retidão e amaldiçoado pela iniquidade, e a aplica à questão de saber se o povo sairá vitorioso contra os invasores. Gideão, por exemplo, obedeceu a Deus ao destruir os altares de Baal, e por isso teve sucesso numa guerra contra os midianitas (Juízes 6:4–5, 25–26). Assim, a retidão leva ao sucesso contra os inimigos.

No entanto, para o Deuteronomista, o oposto também é verdadeiro: a punição vem da desobediência, mesmo que essa punição demore a chegar. 2 Reis 23:26 afirma que Jerusalém foi destruída porque “o Senhor não se demoveu do ardor da sua grande ira, com que ardia a sua ira contra Judá, por todas as provocações com que Manassés o tinha provocado.”

Esse versículo pode parecer estranho à primeira vista, porque Manassés já estava morto havia muito tempo quando Jerusalém foi destruída, e o rei que reinou pouco antes da destruição de Jerusalém, o rei Josias, havia guardado os mandamentos (2 Reis 23:25).

No entanto, a História Deuteronomista sugere que Deus permitiu que Jerusalém fosse destruída porque o rei Manassés foi tão perverso que nem mesmo a retidão do rei Josias conseguiu compensar isso, a punição precisava, eventualmente, chegar, mesmo que demorasse.

A visão de Crônicas

O Cronista oferece uma perspectiva ligeiramente diferente sobre o evento. Tanto Crônicas quanto a História Deuteronomista concordam, de modo geral, quanto à questão das bênçãos pela retidão e das punições pela iniquidade, mas Crônicas nuança a compreensão deuteronomista sobre o momento em que esses eventos acontecem.

Provavelmente por causa da vantagem que vem com o tempo, já que os estudiosos acreditam que Crônicas foi escrito muitas décadas depois de Reis, as recompensas e punições geralmente não demoram em Crônicas, e as pessoas costumam ser punidas por seus pecados ou recompensadas por sua retidão de forma imediata.

Um bom exemplo disso é a forma como o Cronista descreve a morte de Josias. 2 Crônicas 35:21–24 registra que Josias foi lutar contra o rei do Egito em Megido, apesar de ter sido avisado por Deus para não intervir. Como Josias ignorou Deus, os egípcios o mataram. Assim, a retidão é punida e a iniquidade é recompensada em tempo hábil.

Isso leva à resposta do Cronista sobre por que Jerusalém foi destruída: o povo, na época da destruição de Jerusalém, era perverso, a tal ponto que:

“Também todos os chefes dos sacerdotes e o povo aumentavam cada vez mais as transgressões, segundo todas as abominações dos gentios; e contaminaram a casa do Senhor, que ele tinha santificado em Jerusalém. […] Porém zombaram dos mensageiros de Deus, e desprezaram as suas palavras, e mofaram dos seus profetas, até que o furor do Senhor tanto subiu contra o seu povo que mais nenhum remédio houve. Porque fez subir contra eles o rei dos caldeus, o qual matou os seus rapazes à espada, na casa do seu santuário.” (2 Crônicas 36:14–17)

Segundo o Cronista, Deus puniu os habitantes perversos de Jerusalém por seus pecados ao não protegê-los dos babilônios.

Juntando as Duas Perspectivas

Quando as perspectivas do Historiador Deuteronomista e do Cronista são consideradas em conjunto, surge um novo quadro. A punição adiada, retratada pelo autor da História Deuteronomista, pode parecer estranha à primeira vista.

No entanto, quem já testemunhou o impacto negativo das más decisões das pessoas ao longo de várias gerações sabe que, às vezes, as pessoas sofrem por causa dos pecados de seus antepassados, e, nesse sentido, a perspectiva do Historiador Deuteronomista é útil.

Se lida à luz de Crônicas, é possível que o rei Manassés tenha criado, na sociedade, condições que as gerações futuras não conseguiram superar, levando o povo a continuar pecando, até sua destruição final.

A perspectiva do Cronista, de que as pessoas são punidas por seus pecados e abençoadas por sua retidão, é semelhante ao que se encontra no Livro de Mórmon, que afirma que Jerusalém foi destruída “por causa da iniquidade do povo” (1 Néfi 3:17).

No entanto, a visão do Cronista, de que as pessoas são sempre, de forma óbvia, punidas por seus pecados e sempre, de forma óbvia, abençoadas por sua retidão, também exige matização. Às vezes, as bênçãos pela retidão e as punições pelo pecado acontecem de formas muito mais complexas do que o Cronista sugere.

Por exemplo, o Livro de Mórmon retrata um cativeiro adiado de todo o povo sob o perverso rei Noé. O cativeiro deles veio numa época em que já haviam, em grande parte, se arrependido e estavam sendo liderados por um rei justo, Límhi, e um sacerdote justo, Alma. Mas a iniquidade anterior deles os havia condenado, de forma inescapável, à escravidão, segundo as palavras de Abinádi. Felizmente, o cativeiro deles não foi permanente, assim como também não foi o de Israel.

Tanto Reis quanto Crônicas são necessários para formar uma visão mais matizada da história de Israel e da destruição de Jerusalém. Às vezes as pessoas são punidas pela iniquidade ou abençoadas pela retidão imediatamente, mas às vezes não.

As pessoas não são punidas pelos pecados de outras, ainda que os pecados de outras pessoas possam causar coisas terríveis na vida das pessoas. Ler Reis e Crônicas em conjunto permite que os leitores da Bíblia compreendam a complexidade da história de Israel e relacionem esses eventos históricos com suas próprias vidas hoje.

Fonte: Scripture Central

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Post original de Maisfé.org

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