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Como ler Isaías sem desistir no terceiro capítulo

Se você já abriu Isaías cheio de boa vontade e travou em algum ponto entre um rei chamado Peca e uma cidade que você nunca ouviu falar, essa reclamação é bem mais antiga do que parece.

Néfi percebeu que seu povo tinha dificuldade com Isaías e apontou uma razão bem concreta: eles “não conhecem o modo de profetizar dos judeus” (2 Néfi 25:1). Ele mesmo tinha uma vantagem que os filhos dele não tinham. “Eu próprio residi em Jerusalém; conheço, portanto, as regiões circunvizinhas”, escreveu (2 Néfi 25:6).

Néfi tinha andado por aquelas ruas, sabia onde ficavam as cidades citadas, conhecia as ameaças que assustavam as pessoas de lá. Para ele, Isaías era um autor quase contemporâneo. Para os filhos dele, nascidos do outro lado do oceano, era um texto estrangeiro.

Ou seja: a dificuldade não é sinal de que você é ruim em escrituras. Isaías escreveu há aproximadamente 2.700 anos, em hebraico, para gente que sabia de cor a política e a geografia daquela região. Com o Vem, e Segue-Me chegando a Isaías 1–12 em setembro, sob o título “Deus é a minha salvação”, vale conhecer algumas coisas antes de abrir o capítulo 1.

símbolos

Quase tudo em Isaías é poesia

A maior parte do livro é poesia hebraica, e a poesia hebraica funciona de um jeito diferente da nossa. Ela não rima sons. Ela repete ideias: o autor diz uma coisa e depois diz a mesma coisa de novo, com outras palavras.

Isaías 1:18 é um exemplo bem visível:

“Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã.”

São duas frases, mas uma ideia só. Escarlata e carmesim são dois tons do mesmo vermelho; neve e lã são a mesma brancura. Shon Hopkin, professor de escritura antiga na BYU, descreve esse recurso como uma espécie de rima de ideias, em que o pensamento é apresentado e depois repetido, ampliado ou contrastado na linha seguinte.

Isso resolve boa parte da confusão na leitura. Muito versículo que parece ter dois assuntos misteriosos tem só um, dito de dois jeitos. E quando a segunda metade não repete a primeira, e sim contraria, esse contraste normalmente é o ponto do versículo.

Vale saber também que a tradução, por melhor que seja, deixa algumas coisas para trás. No fim da parábola da vinha, Isaías escreve que o Senhor “esperou que exercessem juízo, e eis aqui opressão; justiça, e eis aqui clamor” (Isaías 5:7).

Em português parece uma lista de opostos. Em hebraico, as palavras de cada par são quase idênticas: mishpat (juízo) e mispach (opressão), tsedaqá (justiça) e tse’aqá (clamor). Muda uma letra e a palavra certa vira a errada.

O som imita a distância curta entre o que Deus esperava e o que encontrou. Nem todo versículo esconde alguma coisa assim, mas de vez em quando esconde, e é por isso que consultar outra tradução às vezes rende.

nascimento de Jesus Cristo

Um rei com medo e dois meninos com nomes esquisitos

O capítulo 7 é um daqueles em que a gente se perde nos nomes próprios, e ele fica bem mais fácil com um resumo do que estava acontecendo.

Acaz era rei de Judá e governava em Jerusalém. Dois vizinhos, a Síria e o reino do norte de Israel, tinham se aliado e vinham contra ele para forçá-lo a entrar numa coalizão.

Enquanto isso, a Assíria crescia como potência militar da região, do tipo que engolia reinos pequenos e deportava populações inteiras. O texto descreve o coração do rei e do povo tremendo como árvores sacudidas pelo vento, o que parece uma reação bem razoável.

O Senhor manda Isaías falar com Acaz, e o recado é que aquelas duas ameaças vão passar e que ele não precisa se desesperar. Acaz não se convence e prefere buscar a proteção da Assíria. O versículo mais conhecido do capítulo aparece logo depois:

“Portanto, o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.”

As duas leituras convivem, o presidente Dallin H. Oaks já explicou que o livro de Isaías “contém numerosas profecias que parecem se cumprir diversas vezes”: uma delas parece se referir ao povo da época de Isaías, e outros significados, muitas vezes simbólicos, apontam para acontecimentos bem posteriores. Enxergar Cristo no capítulo 7 não exige apagar Acaz dele.

Quando o Senhor manda Isaías falar com o rei, manda também que ele leve o filho: “Agora tu e teu filho Sear-Jasube saí ao encontro de Acaz” (Isaías 7:3). O nome do menino carrega a ideia de que um remanescente retornará. Isaías chegou àquela conversa acompanhado de uma criança cujo nome já era metade do recado.

No capítulo seguinte nasce outro filho, e o nome vem escolhido de antemão: Maer-Salal-Has-Baz (Isaías 8:3), ligado à ideia de despojo tomado às pressas. A explicação vem no versículo quatro: antes que o menino soubesse chamar pai e mãe, as riquezas de Damasco e os despojos de Samaria seriam levados pelo rei da Assíria. Os nomes daquela família faziam parte da profecia.

Duas pessoas sentadas juntas estudando o Velho Testamento na Bíblia, para ter experiências.
Imagem: Pexels.

Ler um capítulo procurando uma coisa só

Ann Madsen ensinou Isaías por décadas na BYU, e boa parte do que ela recomenda é bastante simples: olhar um mapa, comparar com outra tradução, entender o que estava acontecendo naquele momento. Nada disso exige curso de hebraico.

Uma prática que ajuda muito é escolher, antes de começar o capítulo, uma coisa só para procurar. Em vez de tentar entender tudo de uma vez, você lê atrás de um alvo específico, por exemplo:

  • referências e símbolos de Jesus Cristo;
  • o que o capítulo mostra sobre como Deus é;
  • promessas;
  • advertências;
  • palavras e imagens que se repetem.

Numa leitura você segue uma dessas linhas; numa próxima, outra. Nenhuma leitura fica completa, e tudo bem. A ideia é sair do capítulo com alguma coisa, não fechá-lo definitivamente.

Os cabeçalhos dos capítulos, na edição da Igreja, já entregam um resumo do assunto antes de você começar. As notas de rodapé explicam palavras estranhas e apontam passagens relacionadas.

As lições do Vem, e Segue-Me e os manuais disponíveis no aplicativo Biblioteca do Evangelho fazem o mesmo trabalho de contexto. É ajuda que já está ali, de graça, e que a maioria das pessoas nem abre.

O Livro de Mórmon

Por que isso ajuda também no Livro de Mórmon

Isaías aparece muito no Livro de Mórmon. O manual do Velho Testamento da Igreja contabiliza 414 dos 1.292 versículos de Isaías citados por profetas do Livro de Mórmon, cerca de um terço do livro inteiro.

Néfi copiou capítulos completos e disse que sua alma se deleitava naquelas palavras. Jacó fez o mesmo. Abinádi usou Isaías 53 na defesa que fez diante do rei Noé e de seus sacerdotes. E o Salvador, ao visitar os nefitas, citou Isaías e mandou que pesquisassem essas coisas diligentemente, “porque grandes são as palavras de Isaías” (3 Néfi 23:1).

Se você tem o hábito de pular esses capítulos, não é preciso se sentir culpado por isso; é o que muita gente faz. Mas cada coisa que você aprende sobre o jeito de Isaías escrever também destrava trechos do Livro de Mórmon que pareciam impenetráveis.

O bloco de Isaías 1 a 12 termina com um capítulo curto, quase um cântico de agradecimento. O segundo versículo diz: “Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei.” É a frase que dá nome à semana correspondente do Vem, e Segue-Me, e é também o significado do nome do próprio profeta: Isaías quer dizer, em hebraico, que o Senhor é salvação. Ele passou anos conversando com reis assustados sobre exércitos, alianças e cercos, e carregava essa resposta no nome.

Isaías vai continuar sendo um livro antigo, com capítulos que exigem paciência e trechos que ninguém entende de primeira. Mas dá para ler sabendo que a poesia repete de propósito, que existe um rei com medo por trás do capítulo 7 e que não é obrigatório compreender tudo numa leitura só.

E você, qual capítulo ou passagem de Isaías acha mais difícil de entender? Conte para a gente nos comentários.

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Post original de Maisfé.org

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